Não é possível praticar distância social sem pensar nos mais vulneráveis

Atualizado: Mar 25

Envolver-se com a pandemia da COVID-19 a partir de um lugar de cuidado com os outros. No meu caminho para o aeroporto, minha respiração se aprofundou em um momento de alívio. Após dois dias tentando remarcar meu voo saindo da Europa, eu estava voltando para casa no Brasil antes que as autoridades fechassem as fronteiras completamente. Do carro, eu olhei para os restos do Muro de Berlim, observando as ruas vazias. Fechei meus olhos. Essas ruas já tinham visto tanto — os horrores do Holocausto, resiliência e segregação, a construção e a queda do muro, abertura e diversidade cultural.



Crianças comendo do lixo no Líbano (Fotografia: Bruna Kadletz)

Eu respiro profundo novamente e penso em como um vírus se tornou o centro da atenção global. A pandemia da Covid-19 está interrompendo o ritmo frenético da vida urbana e nos chamando para se retirar e refletir. Enquanto esperava meu voo, bebendo um café pela manhã, eu observei as pessoas ao meu redor. Eu percebi rostos, cobertos com máscaras cirúrgicas, e suas mãos segurando frascos de desinfetantes. Medo e incerteza permeavam o aeroporto. Companhias aéreas cancelando voos deixando pessoas em estado de colapso. Alguns choravam lágrimas de desespero, enquanto outros gritavam suas frustração e desamparo. Quando aterrissamos em Londres, uma alemã chorando compartilhou que seu pai tinha morrido na Alemanha, mas que ela não pôde ficar em seu funeral por medo de não poder voltar para o Reino Unido, onde estavam suas filhas gêmeas de seis anos, esperando por ela. Ela não tinha visto suas filhas em duas semanas e estava com muita saudade. Eu ansiava por casa também. Silenciosamente, eu só podia orar para chegar em casa com segurança. Eu passei por três aeroportos — em Berlim, Londres e São Paulo — antes de aterrissar na minha cidade natal, Florianópolis, e tinha consciência das chances de ter sido infectada pelo vírus durante minha jornada de volta. Eu tentei não me preocupar muito. Mas quando um homem sentado ao meu lado começou a tossir, não pude evitar. Apenas alguns dias antes, eu estava fazendo ligações por skype e enviando emails para organizar e confirmar participação em eventos, conferências, festivais, e palestras pela Europa para exibir o documentário My Land Lives in Me, documentário que estou promovendo. Eu estava animada, cheia de alegria e gratidão. Agora, tudo foi cancelado ou adiado. Eu só queria voltar pra casa e essa necessidade de segurança me colocou num lugar de vulnerabilidade e risco. Senti como um teste — como confiar no desconhecido, como me manter atenta e em paz no olho do furacão. Esse é o momento para viver a prática para além da almofada de meditação. Praticar o que falamos. Respirar profundamente e observar o que está acontecendo no mundo. Se voltar para dentro e testemunhar movimentos interiores, sentimentos e respostas. Sentir a dor e o luto sem negação e julgamento. Estar informada e atenta sem ser sugada pela teia pegajosa de notícias sensacionalistas. Ser cuidadosa e presente sem cair na paranoia. Aprofundar e proporcionar espaço para regeneração da Terra. Emergir de um lugar de amor e cuidado com aqueles mais vulneráveis entre nós. Esse é o momento, agora. Eu cheguei em casa e entrei diretamente em um período de isolamento social de duas semanas, o qual ainda estou praticando. Algumas horas depois da minha chegada, comecei a receber mensagens de refugiados e migrantes com necessidade de suporte. Com menos de 30 casos confirmados de COVID-19, o governador do estado declarou estado de emergência como medida preventiva. Como resultado, autoridades locais fecharam por tempo indeterminado escolas, universidades, restaurantes, shoppings, lojas e fábricas. Serviços sociais, assim como abrigos para moradores de ruas na cidades, eventos públicos e privados foram proibidos também. Essas medidas preventivas necessárias tem impacto social e econômico, afetando adversamente aqueles que habitam as periferias da miséria. Em uma tarde, uma empresa pequena despediu 20 refugiados em situação vulnerável. Nós antecipamos mais demissões nas próximas semanas e refugiados e imigrantes geralmente são os primeiros a serem considerados redundantes nas recessões econômicas. Grande parte dos refugiados no Brasil vivem de salário em salário, em apartamentos compartilhando o aluguel, sem uma rede de apoio que poderia abriga-los em caso de despejo. Geralmente, em uma emergência, cidadãos nativos podem contar com membros da família, amigos, ou com o Estado, mas esse não é necessariamente o caso para recém-chegados ou imigrantes sem documentos. Ser despedido ou impossibilitado de vender seus produtos em mercados de rua pode significar mais ansiedade, insegurança alimentar, possível despejo e ameaça de falta de moradia para refugiados. Pode também se traduzir em outra camada de trauma. Essa realidade é real para refugiados ao redor do mundo e pior para aqueles em campos de refugiados e centros de detenção. Em uma conversa com uma amiga venezuelana, ela disse, “Se fosse no meu país, na minha casa, eu não estaria tão preocupada. Ao menos eu teria um lugar seguro para ficar. Aqui, não estou segura.” Outra amigo me disse, “Hoje tenho um emprego, amanhã não sei. Se sou despedido, como vou ajudar minha família na Venezuela? Eles contam comigo para poderem comer.” Tanto como eu reconheço que esse retiro forçado é um convite para a reflexão interior, uma ótima oportunidade para comunidade global resgatar sua relação com a Terra, consigo e com os outros, eu também penso, como mulher do sul do globo, que isso é uma posição privilegiada. E quando falo em privilégio, eu não falo isso para deixar alguém com sentimento de culpa. Eu simplesmente chamo por reconhecimento e ação a partir dessa compreensão. Em áreas afetadas do Oriente Médio, Africa e América do Sul, por exemplo, há pessoas que não tem acesso a água potável e sabão, muito menos hospitais, medicação e respiradores, vivendo em favelas superlotadas e campos de refugiados. No campo de refugiados Moria, em Lesbos, na Grécia, as condições de vida são tristes, desumanas e insalubres. Nossas preocupações, políticas e medidas para conter o surto deveriam incluir pessoas vivendo em panoramas de esquecimento político. Enquanto praticamos distanciamento físico, estocamos comida e suprimentos, trabalhamos de casa e aproveitamos maratonas de Netflix, vamos ter consciência dos mais vulneráveis entre nós. Enquanto nos sentimos ansiosos e preocupados, vamos praticar empatia, solidariedade e construir um forte senso de comunidade para além dos limites das nossas redes usuais. Na medida que achamos coisas para fazer no nosso tempo livre, vamos cuidar uns dos outros a partir de um lugar de amor e interconexão. Na nossa organização Círculos de Hospitalidade, que assiste refugiados e imigrantes no sul do Brasil, estamos preparando abastecimento de comida, kits de higiene pessoal e material informativo para distribuição em resposta à crise humanitária que se desdobra à nossa frente. Muitas outras organizações e projetos ao redor do globo estão trabalhando para aliviar o sofrimento daqueles que precisam, particularmente nesses tempos desafiadores. Se você pode, apoie organizações locais ou a nossa. É notável perceber como um material orgânico invisível colocou o mundo em alerta, colapsando a economia, nos jogando em um estado de ansiedade coletiva e trazendo mudanças de comportamento substanciais. Coronavirus infectou não só corpos, mas também mentes e todos os aspectos das nossas vidas. A pandemia revelou fraturas profundas dentro e entre a nossa sociedade global. Amplificou desigualdade e injustiça. É um relance do futuro da emergência climática e colapso. Mas também cria espaço para compaixão, regeneração e cooperação. Evoca adaptabilidade e vontade para ficar lado a lado com um planeta em angústia. Dentro da crise mora uma oportunidade valiosa para mudança e transformação social real. Viktor Frankl, um psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, escreveu em seu livro Man’s Searching for Meaning, “tudo pode ser levado de um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas — escolher a sua atitude em qualquer conjunto de circunstâncias, escolher o seu próprio caminho”. Qual é a sua atitude à luz da pandemia? Como você escolhe se engajar e responder a isso? Nós estamos amarrados juntos em um mar de incerteza. Como nós respondemos e nos relacionamos com a crise define como iremos emergir dela. É tempo de trocar a mentalidade individual e autocentrada para uma consciência interconectada e inclusiva.


Bruna Kadletz é idealizadora e co-fundadora do Círculos de Hospitalidade, uma organização sem fins lucrativos que desenvolve, em Florianópolis, projetos educacionais, culturais e sociais voltados para pessoas refugiadas e imigrantes. Ela se dedica ao ativismo espiritual através de iniciativas humanitárias, escrita, palestras e facilitação de workshops.



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