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  • Laira Ramos

Nossa responsabilidade perante o Cosmos

Atualizado: 18 de Out de 2019

Eu não saberia dizer o que temos de responsabilidade nas catástrofes naturais. Nem saberia direito classificar com um nome esses acontecimentos. Mas eles nos remetem a nossa insignificância perante o Cosmos. Nos momentos de tamanho ruído que ensurdece o ouvido, do vendaval que destrói, da energia que acaba, de construções destroçadas, não há como não perceber o quanto somos pequenos. Não sei ao certo se nos damos conta que o tempo todo mexemos nesse ecossistema que tem um ritmo, uma pulsação. Nessa cadência do Cosmos, do Universo, da Terra, volta e meia não nos alinhamos, perdemos o rumo, e nos destroçamos juntos.

É quando vem essa voz avassaladora a falar que é possível sim acabar tudo em um instante, eu vejo que sou pequena. Talvez nem todos sentem-se assim, mas me percebo minúscula. E tenho vontade apenas de sentar e escutar. O que vem me dizer tudo isso? Estamos muito atrasados na nossa percepção de te escutar? Te ouço tal qual um organismo vivo que tem voz e tem muito a dizer. Mas essa linguagem, que vai além de palavras, nos faz um tanto de vezes nos fingirmos de surdos. É difícil entender o porquê. Mas ignorar aspectos fundamentais de nosso viver aqui na Terra é abraçar a destruição.

É triste, no entanto, que não haja discernimento que a destruição não nos poupa. Nos carrega mar adentro, para nos partir ao meio. Nos afogamos juntos, porque este mar que nos leva não vem nos encantar, vem nos acordar. Estamos prontos para acordar? Nesse sentido sinto que a tempestade, o ciclone, o vendaval nos invocam silêncio. Porque é através dele que despertamos. A noite escura clareia silenciosa. Eu acordo mais feliz com o silêncio do que com o ruído. E é preciso de silêncio para aprender a escutar.



Escombros da tempestade na Lagoa da Conceição, Florianópolis. (Foto: Ricardo Wolffenbüettel/Arquivo Pessoal)


Uma hora ou outra, nossos ouvidos vão clamar por ouvir. E a escuta profunda, essa que tem os olhos vidrados no seu interlocutor, e que se dá conta de que tudo que existe é aquele momento, é a nossa única saída. Reabilitar a escuta. Para ouvir o silêncio, a voz que cala e ao mesmo tempo fala, mas que só entendemos quando nos colocamos atentos. Para sermos tradutores de nós mesmos. Para sermos intérpretes de um planeta que solta seus gritos, que se tornam cada vez mais constantes. Eu também choraria alto se me levassem minhas criações, meus dons, aquilo que ofereço de presente ao mundo. Todos nós choraríamos alto se nos levassem aquilo que nos é mais inerente, mais natural, mais sagrado: nosso legado.

Em janeiro, em Florianópolis, na ilha localizada no sul do Brasil, o calor foi intenso. Chegamos a maior temperatura registrada desde 1923, experienciando um calor histórico, onde em alguns pontos chegamos além dos 40ºC. Grande parte das pessoas não conseguiriam fazer muita coisa se não estivessem em um ambiente refrigerado pelos aparelhos de ar-condicionado. Em uma dessas conversas de elevador, ouvi um alerta sobre o país da Oceania: no norte da Austrália, com registros de 49ºC, só estavam tolerando a temperatura pulando do ar-condicionado do carro para o ar-condicionado do escritório, da casa, e assim por diante. Ainda na cidade onde vivo, Florianópolis, mais precisamente na Lagoa da Conceição, neste verão tivemos uma tempestade avassaladora, que destroçou construções e nos assustou com seu poder de destruição.


Ainda nesse janeiro, de calor extremo, chuvas arrebatadoras, nos deparamos com uma tragédia inacreditável: mais uma barragem de rejeitos da Vale se romperia, três anos depois de Mariana, dessa vez em Brumadinho, de novo, no estado de Minas Gerais.



Céu anunciando um forte temporal em Florianópolis (dezembro 2018)


A notícia caiu como um chumbo no estômago, as lágrimas se derramaram como uma cachoeira que quer escorrer rio abaixo, mas sem saber exatamente pra onde. Porque a dor de ver um rio, pessoas, animais, vegetação, tudo que era vivo, em um instante, morto, é gigantesca. A dureza com que janeiro chegou, para um planeta que convoca nosso cuidado mais urgente do que nunca, foi intensa. Estamos aqui, de olhos abertos, observando tudo aquilo que estamos conquistando com certas decisões egoístas. Ao mesmo tempo, conservando nossos corações abertos para podermos enfrentar a lama de rejeitos, o descarte desenfreado, as mortes súbitas, de uma maneira que consigamos seguir fiéis aos nossos propósitos de estar no mundo de uma maneira mais sustentável.

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