O caminho que vai além: percorrer o Yoga é continuar, prosseguir, andar


Uma mulher testemunha o Nascer do Sol na praia
Foto: Murilo Ramos Heinzen

Por muito tempo passamos pela vida com a mente abarrotada, chegando num lugar de exaustão mental e emocional. Nos tempos de hoje, vivemos isso de uma forma ainda mais amplificada. A jornada por meio do Yoga nos habilita a liberação dos condicionamentos mentais — aquelas limitações da mente que carregamos e nem nos damos conta. As formas como reagimos às questões da vida, a maneira como as situações se repetem, os desafios e o sofrimento são a porta de entrada para a autoinvestigação.

A visão sistêmica da nossa existência nos coloca em um lugar de menos arrogância em relação à própria vida; a compreensão de que não temos muito controle das coisas — o caminho do autoconhecimento através do yoga nos chama a desprender-se do controle. Esse desapego do estado de comando (totalmente mental) nos leva a um esvaziamento que possibilita o protagonismo de outras dimensões do ser nas nossas decisões, escolhas e respostas. Na forma como nos relacionamos com a vida propriamente dita. No Bhagavad Gita, livro importante da tradição da Índia, fala-se da imobilização da inquietude da mente, intelecto e ego — é quando tal imobilização acontece que a/o praticante encontra a realização. A realização é interior e acontece com a libertação do ego: o grande objetivo do yoga. Viver uma vida com base nos ensinamentos yoguis seria, segundo o professor Iyengar, “viver com uma atitude da alma que permite encarar a vida em todos os seus aspectos com equanimidade”. Conforme entramos nos processos de descoberta do nosso interior e daquilo que sentimos e pensamos, vamos compreendendo melhor o que se passa dentro da gente. Ao sentar em meditação reorganizamos nosso universo interno. Em um momento de tantas questões que nos atravessam a todo instante a importância dessa reorganização é enorme. No décimo sutra dos Yoga Sutras de Patanjali, é dito: “Para resolver todas as aflições, é necessário descobrir como elas surgem”. É neste momento que há o entendimento de que para conquistar um viver equânime não é só sentar e meditar, ou praticar posturas. É necessário ir além. O caminho do Yoga é simplesmente continuar. Sempre continuar, prosseguir, andar. A liberação e transcendência do ego envolve diversas etapas e elas não podem e nem devem ser puladas. É preciso viver cada etapa e dimensão da jornada de pesquisa de si integralmente e de maneira muito presente e paciente. As etapas às vezes levam muito tempo, e resiliência é tudo nesse caminho. Desenvolver-se para além da nossa mente, comungar com o estado de comunhão requer que tenhamos a coragem de encarar nossas sombras de frente: e isso muitas vezes não é a decisão mais confortável de se fazer. Mas a verdade é que todos nós temos sombras, medos e terrores que nos assombram e, queiramos ou não, em algum momento eles precisam ser enfrentados. Cada um desses momentos de enfrentamentos daquilo que já não queremos (ou não podemos) mais carregar nos exige enorme esforço e preparação: são necessárias ferramentas para liberarmos certos padrões, projeções, traumas. No entanto principalmente é preciso disposição e comprometimento. É fundamental querer se desconstruir. No livro Yoga — a arte da integração, Rohit Mehta fala que falhamos em compreender que a vida e a morte estão entrelaçadas. Ele complementa: “aquele que não descobre momentos de morte no processo da vida, não sabe o que é viver.” O estado de comunhão, equilíbrio e equanimidade é um grande percurso, muitas vezes árido, árduo, cheio de pedras, em outros agradável, feliz e cheio de contentamento; a valentia se faz necessária para pisar cada um desses passos.