Tristeza e felicidade têm fim: a permissão de sentir o que me atravessa


Tristeza, o que a gente faz com ela? Vez ou outra ela chega e muito frequentemente está ligada a uma frustração profunda com a gente mesma. Às vezes são feridas lá de trás abertas que ainda não fecharam, e é alguém tocar minimamente nelas que tudo já se amplia e a dor chega em tristeza — sinalizando que viver dói, e às vezes dói bastante.

Pode ser um luto que não foi bem fechado; pode ser uma sombra, um desafio emocional que não consigo ultrapassar; pode ser simplesmente a melancolia de não se estar onde se esperava.


Le rocking chair, Pierre Boncompain

São diversas as faces da tristeza, e estar triste é muitas vezes sinônimo de inadequação. Mas estar triste é parte de ser humano, e vivenciar a tristeza inteiramente é importante. Como seria quando nos perguntam se está tudo bem e a resposta apenas fosse “estou triste, não está tudo bem, mas tudo bem”.


Negamos veementemente os estados difíceis do viver — e os sentimentos negados escoam de alguma maneira. É essencial viver a tristeza. Observar o sentimento, deixá-lo me atravessar. Às vezes mesmo num dia colorido e quente a tristeza vem. E então é preciso saboreá-la. Tristeza por não saber o que fazer, tristeza por não ter atingido a expectativa, tristeza simplesmente.


Estar triste é diferente de ser triste. Quem sabe se quando a gente se permite estar o que a gente de fato está, consigamos ser cada vez mais o que realmente somos, reais e imperfeitos. Ainda assim, no caminho do auto aperfeiçoamento. Se direcionar contra aquilo que sentimos é ir contra a nossa natureza naquele momento — e isso não é natural. Precisamos aprender a seguir o fluxo das coisas, da vida, do ritmo em nós. Isso significa oferecer espaço interno para aquilo que eu sinto — seja isso agradável ou não. A mente tem prazer em pensar certas coisas, e aversão a outras.


Quando o foco é a equanimidade, um ou outro não são opostos, mas complementares. A dualidade da mente não deve ser reforçada, seja por algo que temos gosto ou desgosto. Aparigraha é a palavra que convida a não possessividade — que é a mente completamente sem lar. O que significa uma mente sem lar? Aquela se destitui de encontrar um objetivo e se entrega ao real propósito da vida.


Nos comentários dos Yoga Sutras, Rohit Mehta diz que “o verdadeiro propósito da vida nos é revelado apenas quando nos abstemos de projetar nossos próprios conceitos de finalidade e propósito. A vida tem seu próprio propósito, e a mente que se abstém de projetar um objetivo compreende este propósito da vida e, portanto, está habilitada a acelerar o movimento da vida para a realização de sua própria finalidade fundamental”.


Voltando à tristeza, é fundamental a compreensão de que todos os sentimentos fazem parte do nosso ser e precisam ser integrados. Nosso desenvolvimento pessoal acontece de forma gradual, lenta, e precisa também ser um movimento de entrega — porque o movimento anímico (da alma) é a rendição.


“Quero cantar como cantam os pássaros, sem me preocupar com quem ouve e o que pensam.” (Atribuído a Jalal Al-Din Rumi)


A auto permissão, a incorporação de todos os sentimentos, dos processos emocionais e do desabrochar da nossa essência são belamente representados pelo poema acima. A autoaceitação anda de mãos dadas com nosso tão aguardado bem-estar. Bem estar esse que é, sim, incluir todos os mal-estares que nos perpassam.